A montanha sobre suas cabeças
Uma aliança assinada sob coação, e o dia em que foi assinada de novo, livremente
Shabat 88a · Êxodo 19:17 · Ester 9:27 · Avodá Zará 2b · Sanhedrin 105a
Uma palavra antes de começar. O que segue é uma leitura entre muitas. As pessoas destas histórias eram tsadikim — homens e mulheres de uma estatura espiritual que não podemos medir — e os sábios que as registraram escolheram cada palavra com cuidado. Oferecemos uma interpretação, conferida com o texto e com os leitores clássicos; não pretendemos ter alcançado a profundidade de seus pensamentos nem de seus sentimentos. Onde um ensaio diz "ele sentiu" ou "os sábios queriam dizer", leia-se: "é assim que a história, tal como a entendemos, nos convida a vê-los".
וַיּוֹצֵא מֹשֶׁה אֶת־הָעָם לִקְרַאת הָאֱלֹהִים מִן־הַמַּחֲנֶה וַיִּתְיַצְּבוּ בְּתַחְתִּית הָהָר
"E Moshé fez sair o povo do acampamento ao encontro de Deus, e eles se puseram ao pé da montanha." (Êxodo 19:17)
Prólogo
Suponha que alguém encoste um revólver na sua cabeça e mande você assinar. Você assina. O contrato é válido? Todo sistema jurídico que já existiu diz que não. Uma promessa feita sob ameaça de morte não é uma promessa; é uma rendição, e a lei não obriga ninguém às suas rendições.
Agora suponha que, muitos anos depois — o revólver há muito guardado, morto o homem que o segurava —, você leia o mesmo contrato outra vez, devagar, e o assine uma segunda vez, por vontade própria. O que é o contrato agora?
Esta não é uma pergunta de prova de faculdade de direito. É a pergunta que três sábios babilônicos fizeram, há uns dezessete séculos, sobre a própria Torá. Fizeram-na apoiados numa única palavra hebraica do livro do Êxodo, e a resposta a que chegaram é uma das coisas mais audaciosas que o Talmud diz sobre o alicerce em que se apoia todo o judaísmo. Disseram que o povo que esteve no Sinai não escolheu, no sentido pleno da palavra. E depois disseram onde, e quando, a escolha foi finalmente feita.
Este é o primeiro de cinco ensaios sobre uma passagem do Talmud, Shabat 88a–b, que os rabinos leem nas semanas anteriores a Shavuot, a festa da entrega da Torá. A passagem faz, de cinco modos diferentes, uma única pergunta: o que significa receber a Torá? Começa aqui, com a leitura mais dura — que não fomos consultados — e termina, daqui a quatro ensaios, com os próprios anjos admitindo que a Torá pertence aos seres humanos. O caminho de uma coisa à outra é o caminho da série.
O texto
I. A tina (Shabat 88a)
A Torá diz que, quando Deus desceu sobre o Sinai, Moshé fez sair o povo do acampamento ao Seu encontro, e "eles se puseram ao pé da montanha" — betachtit hahar. A palavra hebraica tachtit significa "a parte mais baixa"; com a preposição be-, "ao pé de". Mas também se pode ler, de modo bem literal, como "no debaixo de": não ao pé da montanha, e sim por baixo dela. O Talmud toma a segunda leitura e a solta:
״וַיִּתְיַצְּבוּ בְּתַחְתִּית הָהָר״, אָמַר רַב אַבְדִּימִי בַּר חָמָא בַּר חַסָּא: מְלַמֵּד שֶׁכָּפָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֲלֵיהֶם אֶת הָהָר כְּגִיגִית, וְאָמַר לָהֶם: אִם אַתֶּם מְקַבְּלִים הַתּוֹרָה מוּטָב, וְאִם לָאו — שָׁם תְּהֵא קְבוּרַתְכֶם
"E eles se puseram por baixo da montanha." Rav Avdimi bar Chama bar Chassa disse: Isto ensina que o Santo, bendito seja Ele, segurou a montanha sobre eles como uma tina, e lhes disse: "Se vocês aceitarem a Torá, muito bem. E se não — ali será a sua sepultura."
Uma guiguit é uma tina grande, do tipo em que se fabricava cerveja. A imagem é a de uma montanha arrancada da sua base e virada sobre o povo como uma tigela sobre um inseto, com uma voz vinda de dentro dela fazendo uma oferta que não é uma oferta.
A voz seguinte não suaviza a imagem. Tira dela a conclusão jurídica:
אָמַר רַב אַחָא בַּר יַעֲקֹב: מִכָּאן מוֹדָעָא רַבָּה לְאוֹרָיְיתָא
Rav Acha bar Yaakov disse: Daqui há um grande protesto contra a Torá.
Modaá é um termo jurídico formal. Quando alguém está prestes a ser forçado a uma venda ou a uma doação, pode antes declarar diante de testemunhas que age sob coação; a declaração se chama modaá, e lhe permite anular o negócio depois. Rav Acha bar Yaakov está dizendo: se foi assim que aconteceu, então o povo inteiro tem uma modaá permanente contra a Torá inteira. Se Deus algum dia os chamar a juízo por não a terem cumprido — assim Rashi explica as palavras —, eles têm uma resposta pronta: nós a aceitamos sob coação.
E então a terceira voz:
אָמַר רָבָא: אַף עַל פִּי כֵן הֲדוּר קַבְּלוּהָ בִּימֵי אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ, דִּכְתִיב: ״קִיְּמוּ וְקִבְּלוּ הַיְּהוּדִים״ — קִיְּימוּ מַה שֶּׁקִּיבְּלוּ כְּבָר
Rava disse: Mesmo assim, eles a aceitaram de novo nos dias de Achashverosh, como está escrito: "Os judeus confirmaram e aceitaram" (Ester 9:27) — confirmaram o que já haviam aceitado muito antes.
Rava não nega a coação. Não nega a modaá. Ele diz: a objeção existiu, e depois caiu — não no Sinai, mas na Pérsia, no fim do livro de Ester, quando os judeus do império, salvos de Hamã, "confirmaram e tomaram sobre si e sobre a sua descendência" os dias de Purim. O versículo fala de Purim. Rava ouve nos seus dois verbos toda a história da aliança: kiymu — confirmaram, agora, livremente; ma shekiblu kvar — o que haviam recebido, muito antes, debaixo da montanha.
II. A mesma montanha, usada como desculpa (Avodá Zará 2b)
A imagem volta em outro lugar do Talmud, e a segunda aparição nos mostra o quanto a primeira foi dita a sério. Em Avodá Zará 2b os rabinos imaginam as nações do mundo, no fim dos dias, sendo perguntadas por que não cumpriram a Torá, e respondendo:
רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, כְּלוּם כָּפִיתָ עָלֵינוּ הַר כְּגִיגִית וְלֹא קִבַּלְנוּהָ, כְּמוֹ שֶׁעָשִׂיתָ לְיִשְׂרָאֵל?
"Senhor do universo, por acaso seguraste uma montanha sobre nós como uma tina e não a aceitamos, como fizeste com Israel?"
As nações, em outras palavras, usam a montanha como defesa. Os Tossafot, lendo as duas passagens juntas, fazem uma distinção que importa: a modaá de Shabat 88a responde à acusação "por que vocês não aceitaram?" — não responde à acusação "por que vocês não cumpriram o que tinham aceitado?". O protesto é um protesto contra a aceitação. E, segundo Rava, até esse protesto venceu nos dias de Ester.
A história
Os três que falam são mestres babilônicos dos séculos III e IV, as gerações que construíram as grandes academias do Talmud em Pumbedita, Sura e Mechoza. Rava, o último e mais famoso dos três, dirigiu a academia de Mechoza, às margens do Tigre, e morreu por volta do ano 352. Rav Acha bar Yaakov era seu contemporâneo mais velho, da cidade de Papunia. De Rav Avdimi bar Chama bar Chassa restam poucas frases, e esta é de longe a mais conhecida. Nenhum deles viveu na terra de Israel. Liam o livro do Êxodo oito ou nove séculos depois de Ezra, numa terra onde os judeus viviam como minoria desde o primeiro exílio, e perguntavam o que exatamente os obrigava.
A passagem está dentro de uma discussão maior. A página anterior trata de datas: em que dia do mês de Sivan a Torá foi dada? Os rabinos dizem que no sexto; Rabi Yossei, no sétimo. Um pregador da Galileia, diante de Rav Chisda, acaba de louvar "o Misericordioso que deu uma Torá tríplice a um povo tríplice, por um terceiro filho, no terceiro dia, no terceiro mês". O clima é de festa, quase de brincadeira. E então, sem transição, Rav Avdimi vira a montanha de cabeça para baixo.
Ajuda conhecer o formato da narrativa bíblica que os sábios estão lendo. Em Êxodo 19 o povo é perguntado, antes da revelação, se aceitará a aliança, e responde: "Tudo o que o Senhor falou, faremos" (19:8). Em Êxodo 24 — colocado depois dos Dez Mandamentos, embora o Talmud, como veremos no terceiro ensaio, o leia como tendo acontecido antes — eles dizem as palavras famosas "faremos e ouviremos" (24:7). Em nenhum lugar do texto simples há uma ameaça. Os sábios sabiam disso melhor do que ninguém. A montanha sobre as cabeças deles não é um relato do que o Êxodo diz; é uma leitura do que a própria palavra da Torá, betachtit, pode carregar, oferecida por homens que tinham plena consciência de que a mesma Torá registra o povo dizendo sim.
A distância entre o Sinai e Ester é longa. Pela contagem tradicional, a Torá foi dada no ano 2448 da criação, que é 1313 antes da era comum; os acontecimentos do livro de Ester caem no período persa, no século V antes da era comum, ou, pela conta rabínica, um pouco depois. De um modo ou de outro, Rava está dizendo que a aceitação livre veio novecentos anos ou mais depois da aceitação forçada — e que veio não numa montanha, não na terra, não com trovões, mas na diáspora persa, no único livro da Bíblia hebraica que nunca menciona o nome de Deus.
Leitores posteriores sentiram a estranheza da passagem inteira e a responderam de modos diferentes. Os Tossafot, os comentaristas franceses e alemães dos séculos XII e XIII, fizeram a pergunta óbvia — por que forçar um povo que já dissera "faremos e ouviremos"? — e responderam: para que não mudassem de ideia ao ver o grande fogo. O Midrash Tanchuma (Nôach 3) respondeu de outro modo: o povo aceitou livremente a Torá Escrita, que é curta e pede pouco; a montanha foi segurada sobre eles pela Torá Oral, que é longa, e difícil, e exige uma vida inteira. E o Maharal de Praga, no século XVI (Tiferet Israel, capítulo 32), virou o problema de cabeça para baixo: a montanha não foi segurada sobre eles porque pudessem recusar. Foi segurada sobre eles para que ninguém jamais pudesse dizer que a Torá era opcional — uma escolha entre outras, que um povo que a escolheu poderia igualmente desescolher. Algumas coisas são necessárias demais para ficarem entregues ao consentimento.
As perguntas
Numa leitura atenta, este texto deixa uma lista de coisas que não fecham.
Por que um sábio inventaria uma ameaça que a própria Torá não registra, a respeito de um povo que a própria Torá mostra dizendo sim? Por que o sábio seguinte tiraria dela uma conclusão jurídica que parece minar a autoridade de tudo o que ele ensina — e por que o Talmud guardou as suas palavras? Se Rav Acha bar Yaakov tem razão, os judeus ficaram "tecnicamente livres" da Torá por novecentos anos? Por que Rava precisa do livro de Ester — logo dele — para fechar a lacuna? Por que a aceitação livre aconteceu no exílio, sob um rei estrangeiro, depois de um quase massacre, num livro em que Deus nunca é nomeado? E o que tudo isso diz à pessoa que nasceu dentro desta aliança e nunca esteve debaixo de montanha nenhuma?
Acredito que as três frases não são três opiniões, mas um único argumento, contado em três movimentos, e que o argumento trata da diferença entre uma religião em que você nasceu e uma religião que você sustenta.
As lições
1. Uma palavra com um alçapão dentro
Comece pela palavra. Betachtit hahar significa "ao pé da montanha", e todo tradutor a verte assim. Mas tachtit é construída sobre tachat, "debaixo", e os sábios ouviram o alçapão. Não ouviram errado. Escolheram abri-lo.
Por quê? Porque a leitura simples deixa algo sem explicação. Sete semanas antes, aquele povo era escravo. Tinha visto o mar se abrir. Tinha comido pão vindo do céu. Agora uma montanha ardia, e uma voz estava prestes a falar de dentro do fogo e dizer Eu e tu e não farás. O que quer que tenham dito naquele instante — e o texto diz que disseram sim — foi dito por gente que não tinha alternativa real. Não se recusa de verdade uma voz que acabou de afogar o exército do Faraó. Os sábios, lendo a palavra betachtit, puseram essa verdade numa imagem. Não inventaram a coação. Deram nome à coação que já estava ali, na situação, e lhe deram a forma de uma montanha.
Isto é algo que o Talmud faz muitas e muitas vezes, e vale a pena aprender a reconhecer. A imagem fantástica — uma montanha segurada como uma tigela — não é uma afirmação sobre física. É uma afirmação sobre a verdade interior de um momento, puxada para fora e tornada visível. O povo no Sinai estava esmagado pelo que via. Uma aliança aceita por quem está esmagado é aceita sob coação, tenha alguém dito ou não "ou então". A montanha de Rav Avdimi é o nome honesto para o que se sente ao dizer sim a Deus enquanto Deus está falando.
2. Por que um povo que disse "sim" precisou de uma montanha
Os Tossafot, o Tanchuma e o Maharal respondem cada um a isso, e as suas respostas não são rivais; são três camadas de uma só verdade.
Os Tossafot dizem que o povo poderia ter fugido ao ver o fogo. Essa é a resposta psicológica: o entusiasmo é real, e o pânico também, e o segundo vem muitas vezes uma hora depois do primeiro. Quem já fez uma grande promessa num momento de exaltação conhece a manhã fria que vem depois. A montanha representa o fato de que uma aliança não pode se apoiar num estado de espírito.
O Tanchuma diz que o "sim" livre foi para a Torá Escrita — um livro que se lê numa semana — e a montanha foi para a Torá Oral, o estudo sem fim, a lei como de fato se vive, a discussão que nunca se encerra. Essa é a resposta prática. As pessoas assinam um credo. É a prática diária, as mil pequenas obrigações, que ninguém escolhe livremente de antemão, porque ninguém as enxerga de antemão. Não se escolhe um modo de vida como se escolhe uma frase. A gente cresce dentro dele, e no começo alguma coisa precisa nos segurar ali.
O Maharal dá a resposta mais profunda. Diz que a coação não era, de modo algum, uma proteção contra a recusa; era uma afirmação sobre a natureza daquilo que se aceitava. Um povo que escolhesse a Torá poderia, em princípio, desescolhê-la; uma escolha é, por definição, revogável. Mas a Torá, para o Maharal, não é uma opção de vida humana entre muitas. É — como o próximo ensaio da série dirá com todas as letras — aquilo para o que o mundo foi feito. Apresentá-la como uma opção livre seria descrevê-la errado. A montanha diz: isto não depende de você, assim como respirar não depende de você. E o Maharal acrescenta uma imagem impressionante, vinda do midrash: na lei do Deuteronômio, o homem que força uma mulher deve casar-se com ela e nunca pode mandá-la embora (22:29). Israel, diz ele, é nesse sentido a anussá de Deus — aquela que Ele tomou à força — e por isso mesmo aquela de quem Ele nunca pode se divorciar. A coação não é a fraqueza do vínculo. É a garantia da sua permanência.
3. Uma tradição que registra o argumento contra si mesma
Detenha-se em Rav Acha bar Yaakov. Ele é um rabino do Talmud, um homem cuja vida inteira é a Torá, e diz, dentro da própria casa de estudo da Torá, que existe uma objeção jurídica permanente à autoridade da Torá. E os editores do Talmud puseram isso por escrito. Não cortaram. Não explicaram o problema até fazê-lo sumir. Deram-lhe uma linha só sua e seguiram para Rava.
Isso não é pouca coisa. A maioria dos sistemas de crença enterra as suas fraquezas. Aqui o judaísmo faz o contrário: toma a objeção mais perigosa ao seu próprio alicerce — vocês nunca concordaram de verdade — e a põe na boca de um dos seus próprios sábios, no texto central da sua tradição, onde todo aluno dos mil e seiscentos anos seguintes iria lê-la. Uma fé segura o bastante para fazer isso é uma fé que espera ser contestada, e não teme a discussão. A modaá está registrada porque a resposta a ela é melhor do que teria sido o silêncio.
E repare no que a objeção não diz. Não diz que a Torá é falsa, nem que o Sinai não aconteceu, nem que os mandamentos são ruins. Diz algo mais estreito e mais interessante: que a obrigação não pode ser fabricada só pela força. Nem mesmo pela força de Deus. Uma relação que é toda poder de um lado e todo medo do outro ainda não é uma aliança. Rav Acha bar Yaakov insiste, contra a montanha, na dignidade do consentimento. O Talmud concorda com ele. É por isso que precisa de Rava.
4. Por que Ester
Aqui está o coração da passagem. Se a aceitação forçada precisava ser ratificada livremente, por que não foi ratificada na terra de Israel, na dedicação do Templo de Shlomo, ou na aliança de Yehoshua em Shechem, ou na grande leitura da Torá feita por Ezra em Jerusalém? Por que Rava passa por cima de tudo isso e vai buscar o livro de Ester — o único livro sem nenhum milagre que quebre a natureza, sem profeta, sem Templo, sem terra e sem o nome de Deus?
Porque é exatamente esse o ponto. Todo momento anterior tinha alguma coisa da montanha dentro de si. Yehoshua e Ezra estavam de pé na terra que Deus dera; o Templo estava de pé na presença que Deus prometera. Nessas condições um sim ainda é, em parte, um sim ao poder. A Pérsia é diferente. Na Pérsia os judeus são uma minoria dispersa sob um rei que assina sentenças de morte quando está bêbado. Deus não aparece. Nenhuma voz fala. Um decreto de extermínio é emitido e depois, por uma sequência de acontecimentos que poderiam todos ser lidos como coincidência — uma rainha no lugar certo, um rei sem sono, um favor esquecido —, é revertido. E os judeus, tendo sobrevivido, confirmam e aceitam: tomam sobre si uma observância nova, para sempre, sem nenhuma ordem vinda de cima e sem montanha nenhuma em lugar nenhum.
Rashi diz que fizeram isso meahavat hanes — "por amor ao milagre". Amor, não medo. O Maharal observa que Purim é a única observância que os sábios acrescentaram à Torá por vontade própria, e Deus consentiu. É assim que se parece a aceitação livre: não um povo dizendo sim porque há uma montanha sobre ele, mas um povo, no escuro, depois de quase morrer, escolhendo ligar a si mesmo e aos seus filhos a Deus por causa do que Ele fez sem nunca mostrar o rosto. O Deus escondido pode ser escolhido livremente de um modo que o Deus do fogo não pode. Rava precisa de Ester porque só o Deus de Ester é silencioso o bastante para que se possa responder a Ele.
E há mais uma volta. Rava lê kiymu vekiblu — dois verbos para um só ato — como abarcando dois momentos: confirmaram (agora) o que haviam aceitado (então). A aceitação livre não substitui a forçada. Ela a ratifica. O povo na Pérsia não está assinando um contrato novo; está descobrindo que o antigo, que lhe foi imposto, é um contrato que teria assinado de qualquer modo. É assim que se parece a maturidade em qualquer relação. A criança não escolhe os pais, a língua, o nome. O adulto pode. E o adulto que, tendo a liberdade de ir embora, se volta e diz sim, isto, eu fico com isto — fez algo que a criança não podia fazer, e algo que nenhuma montanha poderia fazer por ele.
5. Herdado e escolhido
O que nos leva à última pergunta, e a nós mesmos. O que esta passagem diz a uma pessoa nascida dentro da aliança, que nunca esteve debaixo de montanha nenhuma, que simplesmente recebeu uma tradição ao nascer do mesmo modo como recebeu um sobrenome?
Diz que ela está, em certo sentido, no Sinai. Uma religião herdada é uma religião forçada; ninguém lhe perguntou. Você estava debaixo da montanha antes de saber falar. E a passagem não finge o contrário, nem lhe diz que você deveria se sentir grata por uma escolha que nunca fez. Ela diz: a modaá é real. Você tem um direito permanente de dizer eu nunca concordei.
Mas também diz que o protesto não é o fim da história, e que existe um segundo momento, que vem depois, que vem no exílio, que vem no escuro, quando o fogo já se apagou há muito e Deus é difícil de encontrar e nada obriga — e nesse momento uma pessoa pode fazer o que fizeram os judeus da Pérsia. Ela pode confirmar o que havia recebido. Não porque precise. Porque, tendo olhado para aquilo de olhos abertos, descobre que é seu.
É por isso que os sábios leem esta passagem antes de Shavuot, e por isso que os rabinos de uma época posterior chamaram a festa de zman matan Toratenu, "o tempo da entrega da nossa Torá", e não o tempo em que ela foi entregue. Um presente dado uma vez é história. Um presente aceito de novo a cada ano é uma relação. A montanha aconteceu uma vez. O kiymu acontece toda vez que um judeu que poderia ir embora não vai.
Coda
O Talmud tem uma continuação desta passagem, que conta em outro lugar, em Sanhedrin 105a. Nos dias de Ezequiel, no primeiro exílio, um grupo de judeus foi até o profeta e disse, em resumo: o casamento acabou. Um escravo que o seu senhor vendeu, uma esposa de quem o marido se divorciou — um tem ainda algum direito sobre o outro? Fomos vendidos. Fomos mandados embora. Sejamos como as nações. E Deus lhes respondeu por meio do profeta com as palavras mais duras de Ezequiel: "O que vos vem à mente não há de ser — que dizeis: seremos como as nações… Vivo eu, diz o Senhor Deus, que com mão forte, e com braço estendido, e com furor derramado, reinarei sobre vós" (20:32–33).
Rav Nachman, lendo esse versículo, disse algo que à primeira vista soa louco: "Que o Misericordioso se ire assim contra nós — e nos redima."
Ele entendeu a montanha. A recusa de Deus em soltar, mesmo pela força, não é o contrário do amor; é a teimosia do amor. Os judeus dos dias de Ezequiel queriam que a modaá fosse a última palavra. Deus disse não. E alguns séculos depois, na Pérsia, os seus descendentes descobriram que também não queriam que ela fosse a última palavra. Eles confirmaram o que haviam recebido. Essa é a forma da passagem inteira, e talvez de toda vida vivida dentro de uma tradição que não se escolheu: primeiro a montanha, depois o protesto, e então — se formos afortunados, e honestos, e pacientes — o dia em que assinamos de novo.